Aventuras no Quénia: o inesperado nas férias

Não estava incluída a inesperada escuridão do céu, e a sua intensa e tensa tempestade no Lago Naivasha, que quase nos custou a vida, quando, há um ano, em Julho 2021, esta viagem ao Quénia foi pensada.

Um ano depois, em Agosto 2022, concretizou-se. Dos 20 dias, trouxe infinitas recordações e vivências, da pequena parte que pude visitar, deste país de 56 milhões de habitantes.

Tinha estabelecido alguns objetivos de partida:

  • Conhecer a savana africana, respirando a sua energia e a comunhão com os animais no seu habitat natural e espontâneo.
  • Respirar a natureza autêntica ligando-me à força da mãe terra, vivenciando experiências genuínas e empoderadoras.
  • Fazer uma imersão numa realidade totalmente independente da europeia e do chamado mundo civilizado, afastando-me do mundo ocidental, consumista, exigente e egóico.
  • Agradecer a vida e cocriar um futuro mais amoroso e benevolente para a humanidade e o planeta.

Foram estes 4 pontos alcançados?

Sim, totalmente.

  • Mais profundos do que poderia esperar, mais intensos do que estava preparada, mas tão gratificantes e genuínos, como esperava.
  • Trouxe novos amigos no coração e na continuidade futura.
  • A relativização das nossas necessidades ocidentais tornou-se uma certeza inabalável.
  • Confirmei como a vida que imaginamos necessitar é um quadro mental da ilusão das crenças, que nos empurra para uma exigência extrema dos outros, e nos afasta irremediavelmente do que é verdadeiramente importante: o que somos enquanto pessoas e como nos comportamentos, face a nós mesmos e aos outros.
  • Mesmo aqueles momentos em que, à deriva, num barco de madeira, éramos violentamente embalados pelas ondas gigantes formadas pela forte e repentina tempestade.

 

Perdidos nos 139km2 do Lago Naivasha, revimos as opções e as nossas vidas, aconchegámo-nos mutuamente, protegendo-nos do frio e das ondas que nos fustigavam, até conseguirmos algum abrigo próximo de uma pequena ilha, ganhando fôlego para, de novo, enfrentarmos as águas.

Estávamos sensivelmente a meio da viagem, e dos 9 safaris que fizemos, dos quais, 2 em água.

No Quénia há um princípio de que só completamos o verdadeiro safari, quando avistamos os “top five”, que são os grandes animais da savana: leão, leopardo, búfalo, rinoceronte e elefante.

Sim, todos estiveram nesta jornada, além de muitos mais: crocodilo, hipopótamo, águia, avestruz, flamingo, chita, impala, gnu, girafa, zebra, veado, serpente, macaco, marabu e tantos outros.

Em mais de 2.200 km2 de savana, entre o novo colorido da minha pele, cabelos e roupa, oferecidos pelos diferentes matizes da terra batida, agitada pelo pesado jeep, e uma paisagem de cores ténues, ponteada por verdes intensos, aleatoriamente dispersa na vastidão do horizonte, o habitat natural dos animais é um santuário, não profanado e merecedor do respeito devido à sabedoria da vida.

Tal como nós, vulneráveis à força da natureza no lago Naivasha, a vulnerabilidade da savana está apenas exposta ao clima, porque os animais são protegidos prioritariamente pelas forças governamentais.

Do nosso lado, sem qualquer proteção, e na tentativa de regressarmos ao porto, foi necessário gerir a tensão e ansiedade, e manter a coesão, a união e a confiança no nosso guia, aspetos que foram fundamentais para vencermos tal provação.

Dada a inexistência de meios de resgate no lago, estávamos por nossa conta.

Também os animais, apesar de protegidos, sofrem e perdem vidas quando as condições climáticas se alteram e surpreendem a rotina das estações.

Nesta jornada, a falta de água e a consequente falta de alimento, mostraram-me como os animais podem impiedosamente morrer.

Um leão idoso, sem força para se deslocar, deita-se e aguarda pelo seu fim. A sua respiração, vaga e diminuída, os seus olhos vazios e a imobilidade são difíceis de observar, quando há uma impotência para lhe acudir e dar vida.

Um elefante que tomba inerte no chão, para dar fim à sua existência, foi outro momento emocionalmente desafiador, que deixou no meu coração uma homenagem à família dos elefantes, quando observei o ritual de despedida ao que partia, e com eles me uni, em gratidão por me permitirem participar desse momento tão íntimo.

Relembrar este e outros episódios que vivi nesta viagem, recordar-me-á sempre a importância de criar e agir com consciência do momento presente e do seu impato ao meu redor.

O reforço deste sentimento é especialmente importante na recordação do Parque Masai, em Amboseli. Sendo este o santuário dos elefantes, a sua vivência foi particularmente especial e intensa.

A comunhão com os elefantes, foi feita durante várias horas, e mostrou-me, em direto, como esta comunidade animal vive em comunhão e respeito, e nela se exerce uma liderança benévola, mas determinada e firme. Sobre isso, escreverei noutro artigo.

Já na nossa aventura em Naivasha, as águas turbulentas que se transformaram numa ameaça para a nossa segurança, foram também um teste à capacidade da nossa força, firmeza emocional e competência para nos liderarmos a nós mesmas.

E embora tenhamos vivido este desafio antes de comungarmos com a comunidade dos elefantes, conseguimos dar o nosso melhor, confortadas numa fé pura de que seríamos ajudadas pelo universo.

Fortalecemo-nos mutuamente sobre as águas densas e enfurecidas, até ao momento em que de novo arriscámos enfrentar as ondas.

Com muita suavidade e delicadeza, de forma lenta e progressiva, para não as perturbarmos no seu ritmo, ajustámo-nos ao movimento ondulatório das águas turbulentas, num tempo que parecia nunca mais acabar e assim chegámos ao porto de ancoragem.

O nosso guia de terra aguardava-nos para nos reconfortar.

Soubemos posteriormente que desde 2017 não havia uma tempestade destas no lago, e que era normal não haver meios de resgate.

Foi sorte a nossa termos testemunhado e vivido, na primeira pessoa, como a calma água do lago se transforma num instante, num quase inferno desenfreado de agressividade e turbulência, que nos põe em causa e nos mostra o poder da transformação.

Sou agora ainda mais atenta aos fenómenos da natureza e grata a todas as suas formas de vida.

E tantas outras vivências estão contidas nestes dias.

As pessoas e suas culturas.

As tribos e os seus modos de vida, suas necessidades e sonhos.

A criatividade que denotam, para desenharem soluções onde não se vislumbram oportunidades.

A escola para os pequeninos Maasai, construída num improvisado pequeno pavilhão, envolto da terra solta e vermelha, onde dezenas de crianças se amontoam nos pequenos bancos, porque não há para todos.

Nunca esquecerei os seus sorrisos rasgados, os olhos grandes e bem despertos, e as suas mãos pequeninas nas minhas.

A vontade inabalável de crescimento e aprendizagem, do pedido de ajuda sem hesitar e de oferecer sem nada pedir em troca, são parte deste povo, onde a vida é partilhada entre pessoas e animais, sem pudor ou restrição.

E finalmente, o Kilimanjaro, a grande montanha.

A grande aventura para lá chegar, foi empolgante, surpreendente, impensável e até arriscada.

Mas é disto que a vida é feita.

Arriscar, ser e fazer diferente, leva-nos ao nível mais elevado do nosso próprio ser.

À grandeza que trazemos fechada em nós, deixando-a revelar-se e mostrar-nos que somos feitos de luz e amor, que nos elevam ao nosso Kilimanjaro interior.

E quando lá chegamos, podemos abrir as asas da nossa liberdade, libertando-nos do ego pequenino e medroso, para abraçarmos a verdadeira via natural da felicidade, que já existe em nós!a

Esta viagem foi especial para mim.

Agora, nas minhas asas abertas em todo o seu esplendor, reside a força que trouxe e que quero partilhar consigo.

Não apenas neste e noutros textos, mas acima de tudo, numa maior proximidade, que vá de encontro à sua grandeza escondida e ainda adormecida.

Quaisquer que sejam os seus sonhos, abraçá-los na sua própria grandeza é a porta que abre os segredos do alcance do seu presente e futuro.

Chegou a hora de desvendar essa grandeza.

O mundo em convulsão caótica e imprevisível necessita de um valor mais elevado, uma energia mais forte, que se sobreponha à tensão e negatividade.

Abraços luminosos!

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