Inspiração

Em tempo de Covid-19 as pessoas que nos inspiram dão-nos força e esperança

Tenho a sorte de conviver com uma grande amiga minha, que há mais de 20 anos dedica a sua vida à ajuda humanitária.

Mulher de uma franca sabedoria e experiência. Poucas coisas e poucos países do mundo lhe são desconhecidos. Poucas guerras, guerrilhas e conflitos não lhe passaram pelas mãos.

Todas as culturas lhe são familiares, já vestiu as vestes apropriadas a cada crença e cultura, para poder sentar-se à mesa das negociações em tempos de guerra e conflito.

Através dela, tenho conhecido as histórias desses conflitos: entre países, economias, poder político ou militar. São histórias difíceis de dirigir, pelo absurdo, pela falta de humanismo e de respeito pela vida, nas suas diferentes formas de expressão.

Sei que sou importante para a Maria, pois comigo pode “desabafar”, libertar palavras, anseios, emoções contidas e até medos, e também receber força e apoio incondicional.

Através destas conversas “terapêuticas”, tenho conhecido um mundo que não imaginamos existir, aqui, no conforto dos nossos países, das nossas cidades europeias, estruturadas e abundantes, onde desfrutamos de um consumo desmedido, sem pararmos para reflectir sobre a origem e as consequências desse consumo.

Em final de Setembro de 2012, Maria tinha acabado de sair do Afeganistão, tendo concluído a instalação de um hospital de apoio à população em guerra, quando este foi destruído por um bombardeamento aéreo, e 14 membros do seu staff morreram.

Esta amiga tem no rosto e nos modos uma certa dureza, um estado de alerta permanente, uma determinação dirigida à necessidade de observar, de ajustar, mantendo-se firme e sendo segura. Tudo isto, reflexo das centenas de missões e negociações com culturas tão distantes das nossas, que nos assustaríamos perante os desafios que apresentam.

Uma mulher europeia, que negoceia a instalação de mais um hospital, obstétrico desta vez, num país muçulmano tradicional e totalitário, onde uma das condições é que nenhum homem poderá entrar no hospital, e onde a saúde das mulheres é secundária, pois o mais importante é a guerra. É desafiador, arriscado. Exige perícia relacional e muita perspicácia na comunicação.

No relato, vejo-lhe no olhar e nos gestos, por detrás das palavras, como é difícil e desgastante este movimento. Por entre povos e países, conquistados e conquistadores, nos quais exércitos de várias origens impõem autoritariamente as suas regras. E continuar sempre. Por um bem maior. Por um humanismo feito por pessoas para pessoas.

Nunca ouvi um queixume, uma vitimização.

O que tenho aprendido com a Maria é uma dádiva, um alerta, pelo qual estou grata, e me enriquece permanentemente.

Há uns meses, a Maria dizia-me:

“No meio do maior sofrimento que possamos imaginar, conseguimos sempre ver e criar alegria. O ser humano descobre sempre forma de ser feliz no maior caos. Nunca o drama é constante”.

A minha amiga, a quem o governo australiano erigiu um monumento simbólico de homenagem pelo seu contributo à humanidade, é portuguesa.

Viveu meses encarcerada numa prisão, após ela e mais cindo membros do seu staff terem sido feitos prisioneiros por extremistas do médio Oriente.

Falou-me desses meses de escuridão e silêncio, numa cela de 4 paredes, onde tentava sinalizar os dias que passavam. Vejo até hoje como as marcas dessa experiência foram vincadas no seu corpo e na sua alma. Definitivamente.

Mas, perante o infortúnio, a coragem faz-se vida.

Perante o desconhecido, a esperança abre fronteiras até aí desconhecidas.

Perante a vontade de vencer, a determinação derruba os obstáculos.

Uma das coisas que aprendi com esta amiga, é que a guerra não existe. São os homens e mulheres do mundo que lhe dão forma, acção, vida.

Está em nós o poder da vida. Tal como nesta pandemia, está em nós a força de vencer.

O vírus não vencerá. E nós sabemos isso.

Mas estamos a travar outra guerra, bem mais invisível e por isso mesmo mais difícil ainda.

Como vamos criar o novo futuro? Dentro de nós mesmos, o grito entre a Luz e a Sombra é assustador: o de sermos capazes de verdadeiramente nos amarmos a nós mesmos, a fim de podermos amar os outros?

E todos juntos, criarmos o verdadeiro modelo humano, social e económico de justiça e paz que temos ambicionado?

Nós escolhemos. A Felicidade espera por essa escolha. Em qualquer parte do mundo. Porque estarmos ligados, é a maior e mais desafiadora experiência desta pandemia: estamos ligados no bem e no mal. Não é fantasia, é realidade: Todos Somos Um.

E por isso mesmo, vamos, todos juntos, criar uma nova comunicação: “O Humano é Humanismo”.

A Maria é disso um exemplo. Conhece as fraquezas do mundo e não desistiu do mundo. Pelo contrário, conhecer as suas fraquezas deu-lhe sabedoria para as soluções, e força para a concretização.

Actualmente, a Maria está num país da Europa. Porque, por estes dias, a Europa está enferma e precisa ser curada.